Doença de Alzheimer vai além do envelhecimento natural e ainda é gravemente subdiagnosticada

Distinções entre envelhecimento normal e doença de Alzheimer são fundamentais para um diagnóstico nas fases iniciais

A doença de Alzheimer (DA) é uma condição neurodegenerativa progressiva que vai muito além das mudanças esperadas com o envelhecimento natural. Enquanto o envelhecimento saudável pode causar esquecimentos ocasionais e pequenas dificuldades cognitivas, a DA se caracteriza por um declínio contínuo e significativo dessas funções, afetando memória, linguagem, orientação espacial e temporal, e julgamento. Esse processo é resultado do acúmulo anormal de proteínas no cérebro, como a beta-amiloide e a tau, que levam à morte neuronal e à atrofia cerebral.¹


Sinais iniciais
Os primeiros indícios da doença frequentemente vão além da perda de memória recente. Pessoas com DA podem apresentar dificuldade em executar tarefas simples do dia a dia, como preparar uma refeição conhecida ou organizar compromissos, além de mudanças de humor e personalidade, como irritabilidade e apatia. No início, os sintomas podem ser sutis, mas pioram com o tempo, prejudicando a comunicação e a autonomia.²
O que acontece no cérebro de quem convive com a doença de Alzheimer? A evolução da DA é gradual e costuma ser dividida em estágios, que fazem parte de um
continuum³:

Comprometimento Cognitivo Leve (CCL)

  • Esquecimentos sutis, especialmente de memória recente.

  • Dificuldade de concentração e para encontrar palavras

  • Mudanças comportamentais leves (apatia, sintomas depressivos ou ansiedade)

  • Preservação da autonomia

Demência leve

  • Falhas frequentes de memória e desorientação

  • Mantém autonomia, mas precisa de apoio em tarefas complexas

Demência moderada

  • Dificuldade de comunicação e reconhecimento de pessoas próximas

  • Mudanças comportamentais, como agitação e confusão

  • Necessidade de supervisão constante

Demência grave

  • Perda da capacidade de comunicar-se, andar ou se alimentar sozinho

  • Dependência total

Pessoas que cuidam

O impacto da DA vai além do paciente, atingindo de forma significativa familiares e cuidadores. Estudos indicam que quem assume a responsabilidade de cuidar de pessoas com Alzheimer enfrenta níveis elevados de estresse, ansiedade e depressão, muitas vezes superiores aos da população geral⁴. A sobrecarga física, ao auxiliar em atividades diárias como higiene, alimentação e mobilidade, soma-se à carga emocional de acompanhar o declínio cognitivo do ente querido.

A falta de informações e suporte adequado intensifica o isolamento, frustração e culpa, tornando o cuidado contínuo ainda mais desgastante. A pressão constante para tomar decisões médicas e gerenciar rotinas sem pausas ou ajuda profissional aumenta o risco de esgotamento e compromete a saúde do cuidador, reforçando a necessidade de políticas públicas, grupos de apoio e orientação especializada.

Subdiagnóstico

No Brasil, a DA é subdiagnosticada: mais de 80% dos casos de demência não são identificados⁵. Isso se deve a fatores sociais, estruturais e culturais. O acesso limitado a serviços especializados, como neurologistas e geriatras, e o estigma na própria atenção primária dificultam o diagnóstico precoce, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Além disso, há desconhecimento sobre os sinais iniciais, e esquecimentos ou mudanças comportamentais são frequentemente atribuídos ao envelhecimento natural.

O estigma social também contribui: o receio de enfrentar preconceitos faz com que familiares adiem a avaliação médica. Limitações do sistema de saúde, como consultas rápidas e a ausência de protocolos padronizados de rastreio cognitivo, deixam muitos pacientes sem diagnóstico até que os sintomas se tornem evidentes.

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) recomenda que a população esteja atenta aos sinais precoces da DA e busque orientação médica. Reconhecer esses sinais é essencial para buscar ajuda no momento adequado. Alterações sutis na memória, dificuldade de concentração e pequenos lapsos em atividades cotidianas, como manejar as finanças, tomar as medicações de maneira correta ou organizar compromissos, podem indicar a doença. Mudanças de humor ou perda de interesse por atividades antes prazerosas também são sinais de alerta⁶.

Observar esses padrões e procurar avaliação médica especializada permite exames clínicos, de imagem e testes cognitivos para confirmar o diagnóstico. A detecção precoce possibilita iniciar tratamentos que retardam o avanço da doença, além de planejar o cuidado, oferecer suporte às famílias e prolongar a autonomia do paciente⁷.

* Artigo assinado pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

Referências
1. Monfared, A. A. T., Byrnes, M. J., White, L. A., & Zhang, Q. (2023). Alzheimer’s disease: Epidemiology and clinical progression. PMCID: PMC9095793. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC9095793/. Acesso em 18 de setembro de 2025.
2. Alzheimer’s Association. (2025). 10 early signs and symptoms of Alzheimer's and dementia. Disponível em: https://www.alz.org/alzheimers-dementia/10_signs. Acesso em 18 de setembro de 2025.
3. Davis, M., O’Connell, T., Johnson, S. J., Cline, S. K., Merikle, E., Martenyi, F., & Simpson, K. N. (2018). Estimating Alzheimer's disease progression rates from normal cognition through mild cognitive impairment and stages of dementia. Current Alzheimer Research, 15(8), 777–788. https://doi.org/10.2174/1567205015666180119092427
4. Silva, C. F., Passos, V. M. A., & Barreto, S. M. (2012). Frequência e repercussão da sobrecarga de cuidadoras familiares de idosos com demência. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 15(4), 709–718. https://doi.org/10.1590/S1809-98232012000400010
5. Ministério da Saúde. Relatório Nacional sobre a Demência: Epidemiologia, (re)conhecimento e projeções futuras. 2024. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/relatorio_nacional_demencia_brasil.pdf. Acesso em 04 de setembro de 2025.
6. Schilling, L. P., Balthazar, M. L. F., Radanovic, M., Forlenza, O. V., Silagi, M. L., Smid, J., Barbosa, B. J. A. P., Frota, N. A. F., Souza, L. C. de ., Vale, F. A. C., Caramelli, P., Bertolucci, P. H. F., Chaves, M. L. F., Brucki, S. M. D., Damasceno, B. P., & Nitrini, R.. (2022). Diagnóstico da doença de Alzheimer: recomendações do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia. Dementia & Neuropsychologia, 16(3), 25–39. https://doi.org/10.1590/1980-5764-DN-2022-S102PT
7. PRINCE, M.; BRYCE, R.; FERRI, C. World Alzheimer Report 2011: The benefits of early diagnosis and intervention. London: Alzheimer’s Disease International, 2011. Disponível em: https://www.alzint.org/u/WorldAlzheimerReport2011.pdf. Acesso em: 26 ago. 2024.

Material destinado ao público geral.

PP-AD-BR-0224 – Setembro 2025