Estigmas da doença de Alzheimer impactam profissionais de saúde, pessoas com o diagnóstico e familiares

O preconceito ainda é uma das maiores barreiras no cuidado da doença e afeta todas as etapas da jornada, da prevenção ao tratamento

Os estigmas que cercam a doença de Alzheimer continuam sendo um obstáculo silencioso, mas profundo, para o diagnóstico nos estágios iniciais e o cuidado adequado. O medo do julgamento, o desconhecimento e os mitos sobre a doença fazem com que muitas pessoas evitem procurar ajuda médica ou falar sobre o que estão vivendo. O resultado é o atraso no diagnóstico, a piora da qualidade de vida e a exclusão social de quem vive com Alzheimer e de suas famílias.

Como o estigma dificulta a prevenção e o diagnóstico

Quando a doença de Alzheimer ainda é vista com medo ou vergonha, o cuidado começa tarde. Muitas famílias confundem os primeiros sinais da doença com “envelhecimento normal”, acreditando que a perda de memória é algo inevitável. Esse equívoco, somado a crenças como “não há o que fazer” ou “só idosos têm Alzheimer”, adia o diagnóstico e impede que intervenções eficazes sejam iniciadas nos estágios iniciais, quando há maior potencial para proteger o cérebro e preservar a autonomia.

Segundo uma pesquisa do DataFolha, 68% dos brasileiros acreditam que a perda de memória é algo normal no envelhecimento, o que reflete uma visão equivocada profundamente enraizada. Esses números evidenciam como o estigma cultural — a ideia de “esquecer é normal” — se traduz numa barreira concreta ao reconhecimento e à intervenção efetiva. ⁴

A informação correta é uma das principais ferramentas para romper esse ciclo. Conhecer os sintomas e diferenciar o envelhecimento saudável dos sinais de alerta permite agir no momento certo. Educação, conscientização e hábitos saudáveis, como atividade física, alimentação equilibrada e estímulos cognitivos, são fundamentais para retardar o aparecimento dos sintomas e reduzir o impacto da doença.

Romper o silêncio e transformar a narrativa

O estigma também faz com que pessoas com Alzheimer e seus familiares se calem. Por medo de julgamento, muitos escondem o diagnóstico ou se afastam do convívio social.

Um estudo qualitativo conduzido em São Paulo com pessoas com demência e seus familiares mostrou que muitos diagnosticados optam por uma ‘divulgação seletiva’ do Alzheimer, por medo do julgamento social. ⁵

Isso evidencia que romper o estigma exige não apenas informação, mas uma mudança profunda nas formas de relacionamento e cuidado. Para mudar isso, é essencial transformar a linguagem e a forma como falamos sobre a doença.

Em 2024, a FEBRAZ (Federação Brasileira das Associações de Alzheimer) lançou o Guia de Linguagem Inclusiva, que orienta profissionais de saúde, meios de comunicação e a sociedade sobre o uso de termos inclusivos e representações adequadas das pessoas com demência. A iniciativa propõe uma mudança concreta de perspectiva: enxergar além da doença, valorizando a pessoa, sua história e dignidade.

Atitudes práticas que reduzem o preconceito

Pequenos gestos podem fazer grande diferença. Escutar com atenção, respeitar limites e valorizar o que a pessoa com Alzheimer consegue fazer são atitudes que reforçam respeito e inclusão. Estimular a autonomia, mesmo em tarefas simples, fortalece a autoestima e o sentimento de pertencimento.

Criar espaços de diálogo, seja em casa, em grupos comunitários ou em eventos culturais, ajuda a desconstruir estereótipos e mostra que pessoas com Alzheimer continuam tendo desejos, opiniões e contribuições valiosas. A inclusão é um cuidado ativo.

O impacto do estigma também entre profissionais de saúde

Os estigmas não afetam apenas as famílias. Profissionais de saúde também estão sujeitos a preconceitos estruturais que podem, sem intenção, influenciar a qualidade do atendimento. Quando o olhar clínico é atravessado por estereótipos, o diagnóstico se torna tardio e o cuidado, menos humanizado.

Por isso, investir em formação contínua, sensibilização e trocas de experiência é essencial. Profissionais bem preparados conseguem identificar sinais precoces, orientar com empatia e construir vínculos de confiança, pilares de um cuidado digno e centrado na pessoa.

O papel da FEBRAZ na conscientização e no cuidado

A FEBRAZ atua em três frentes principais que se complementam:

  1. Conscientização nacional: com campanhas de informação que buscam derrubar mitos e estimular uma visão mais humana sobre Alzheimer;

  2. Formação e capacitação, por meio de programas como o ZELAR, voltado a cuidadores, familiares e profissionais, com base em evidências científicas e foco na qualidade de vida;

  3. Advocacy e articulação política, em parceria com a Coalizão Nacional pelas Demências (CoNaDe), para garantir a implementação da Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Alzheimer e Outras Demências.

Essas iniciativas reforçam o compromisso da FEBRAZ com uma sociedade mais acolhedora, informada e justa, onde pessoas com Alzheimer possam viver com autonomia, dignidade e pertencimento.

Artigo assinado pela Dra. Elaine Mateus, Presidente da FEBRAZ (Federação Brasileira das Associações de Alzheimer).

FONTES:

1. Alzheimer’s Disease International. World Alzheimer Report 2022: Life after diagnosis – Navigating treatment, care and support. 2022. Acesso em: 24 nov. 2025.

2. Ministério da Saúde. Doença de Alzheimer: sinais, sintomas, diagnóstico e prevenção. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude. Acesso em: 24 nov. 2025.

3. FEBRAZ – Federação Brasileira das Associações de Alzheimer. Guia de Linguagem Inclusiva. 2024. Disponível em: https://www.febraz.org.br. Acesso em: 24 nov. 2025.

4. Estigma faz paciente adiar busca por tratamento para Alzheimer. Estúdio Folha / Lilly Farmacêutica. 2025. Disponível em: https://estudio.folha.uol.com.br/lillyfarmaceutica/2025/08/estigma-faz-paciente-adiar-busca-por-tratamento-para-alzheimer.shtml . Acesso em: 24 nov. 2025.

5. Oliveira, D., da Mata, F., Mateus, E., Musyimi, C. W., Farina, N., Ferri, C. P. & Evans-Lacko, S. Experiences of stigma and discrimination among people living with dementia and family carers in Brazil: Qualitative study. Ageing & Society, 43(2): 447-468, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37920698/. Acesso em: 24 nov. 2025

PP-AD-BR-0243 – Novembro de 2025 – Material destinado ao público geral.

Material destinado ao público geral.

PP-AD-BR-0243 – Novembro de 2025